17.4.14

HAIM (REMIXED)

Haim
"If I Could Change Your Mind (MK Remix)"
Single (2014)
h
Essa é igual àquelas histórias assexuadas da Sofia Coppola: muita referência indie e nada além de adeus e um beijo no rosto no final do filme (mas antes, só um adendo: o remix é o salto alto da música pop). Eu estava sentado no sofá lendo a Rolling Stone, quando vi que o cantor predileto dela, da menina que estava deitada no tapete (e que poderia com facilidade se passar pela quarta irmã Haim), vi que o  cantor estava na lista dos dez artistas mais criativos do ano anterior. "O disco do Pélico é um dos dez melhores nacionais do ano passado" - eu disse assim que ela acordou. Mas eu falei  isso de uma maneira tão serena, tão tranquila, que mal reconheci minha própria voz. Naquele momento, então, eu tinha finalmente conseguido visualizar o "eu" que passei a vida inteira procurando. "É mesmo? O que diz a resenha?", ela perguntou. 
 
Quando Haim me traz essas memórias eu sinto mais saudade daquele meu "eu" do que da mulher que pegara a revista para confirmar a lista dos dez melhores de 2011. Mas isso não  deixa de ser amor se você for ver bem. E se você for ver bem mesmo, a Sofia Coppola só escreve filminhos de merda.


12.4.14

LANA DEL REY (DUB)

Lana Del Rey
"Summertime Sadness (Asadinho Dub)
Single (2013)
h
Pouco tempo atrás eu li um livro sobre a história do punk e logo engatei um outro sobre um brasileiro que mudou a vida quando fez um viagem só com a roupa do corpo para a Europa, na década  de 70. Nos dois livros eu encontrei exatamente a mesma expressão para descrever a personalidade de alguns personagens: "anarco pop". O que é isso? É um sujeito politizado, que quer transformar a sociedade, mas educa-la mais através do pop e do rock do que da discussão política propriamente. Malcolm McLaren (o primeiro livro falava dele) era isso. Perry Farrell, o dono do Lollapaloza é assim; no Brasil, tem o Antônio Bivar, o homem que organizou o primeiro festival punk em São Paulo, nos anos 80 (o segundo livro era dele); tem o dramaturgo Felipe Hirsch e o jornalista Fábio Massari, só para citar alguns. Na semana passada eu dei uma de anarco pop tocando esse remix da Lana Del Rey num evento incrível do qual participei. Tinha uma pessoa que nem era ligada em deep house, música eletrônica, pop nem nada disso e que ficou absolutamente petrificada desde a primeira batida dessa música. O olhar hipnotizado se fixou num ponto e ficou. O que o rosto expressava? Era apenas um momento de reflexão? Era tristeza? Alegria? Tudo junto? "Hey, foda essa música, hein?" - eu falei, tirando a pessoa do transe. "Ahn? Nossa, meu Deus, o que que é isso..."   

12.3.14

THE UPSETTERS

The Upsetters
"vs Panta Rock"
This Is Dub: The Original Dub Masters CD II
h
Depois da virada do ano, não sei por qual razão, talvez por petulância, eu comecei a ouvir só música jamaicana, sobretudo dub e rocksteady (acho que lembrei o motivo: saudade do bairro pobre em que fiquei durante três meses em Londres, chamado Seven Sisters, uma perifa predominantemente jamaicana). Li uma teoria esses dias de que o dub é bastante atraente porque simula o som do útero materno. O dub nada mais é do que um reggae sem vocal e sem guitarra, só baixo e bateria: o primeiro instrumento quase explodindo, o segundo sem menção de caixa nem de pratos, só o bumbo bombando bumbum-bum. O rocksteady é o protótipo disso. Às vezes vem com algumas frases curtas cabulosamente roots (a faixa escolhida não tem voz), barulho de lata, gravações lo-fi (para não dizer toscas), sample de metais. O rocksteady tem esse nome por causa de uma dança muito apreciada nos clubs da Terra do Homem (sim, ele) nos anos 50 e 60. Boa viagem.  




24.2.14

S.P.Y.


S.P.Y.
"By Your Side (Logistics Remix)"
Drum & Bass Arena Anthology: D&B Classics From 1993-2013
h
O drum'n'bass é o estilo mais heavy metal da música eletrônica. Quando explodiu aqui, em 1995, era música de bandido e todo mundo chamava de jungle. Na Inglaterra, onde o gênero nasceu, era a trilha sonora do vandalismo (confira a Wikipédia britânica). Depois virou mainstream: tocava na MTV, foi misturada com MPB e até o David 'olha-como-ele-é-foda' Bowie gravou (aliás a roupa sensacional que ele usou para a capa daquele álbum de tecno de 1997, "Earthling", está exposta no Museu da Imagem e do Som em São Paulo). Sobre essa música que estou postando agora, eu passei exatos oito anos procurando-a. Em 2006 eu estava no Skol Beats vendo o dj Marky, que na época ainda era Marky Marky, quando o moleque tocou isso. Eu lembro bem de estar chapado, da tenda estar abarrotada e de uma menina gordinha pegando dois caras ao mesmo tempo (acho que era até mais do que uma pegada, mas ok). E era tudo muito lindo: o clima pesado da tenda, aquela voz de cantora de soul, teclados psicodélicos e a batida eufórica do jungle. (Para ser honesto, não era bem essa música, mas era uma igual, tenho certeza.)

16.2.14

ECLIPSE

Pink Floyd
"Eclipse"
The Dark Side of The Moon (1973)
h
Tudo o que você toca
Tudo o que você vê
Tudo o que você experimenta
Tudo o que você sente
Tudo o que você ama
Tudo o que você odeia
Tudo o que você desconfia
Tudo o que você guarda
Tudo o que você dá
Tudo o que você negocia
Tudo o que você compra
implora, pede emprestado ou rouba
Tudo o que você cria
Tudo o que você destrói
Tudo o que você faz
Tudo o que você come
todo mundo que você encontra
Tudo o que passa rápido para você
Todos com quem você briga
Tudo o que é agora
Tudo o que já foi
Tudo o que será
E tudo o que está sob o sol estão em sintonia
Mas o sol é escurecido pela lua
 


23.1.14

RUDIMENTAL

Rudimental
"Right Here"
Waiting All Night EP (2013)
h
O preconceito recorrente é que aqueles caras musculosos e aquelas meninas gostosonas do BBB são pessoas burras. Não são. São quase gênios. Já observei pessoas assim na academia. Eles seguem rigorosamente os treinos; eles trocam os pesos o tempo todo, mesmo que não estejam aguentando nem os pesos anteriores. Eles vão até o número dez da série, sem desistir. E aí eles obtém aqueles resultados. Coisa de nerd mesmo. Era exatamente o que acontecia com uns caras gênios da matemática com quem eu trabalhei. Eles não nasceram sabendo calcular, de modo que tiveram de treinar, e muito. Aí eles ganhavam medalhas internacionais, uma grana, bolsas de estudos em Harvard e coisas assim (mulheres não pegavam, porque ninguém pode ter tudo). Eles resolviam exercícios do vestibular para o ITA em menos de um minuto. Acredito que esses dois tipos de pessoas sejam inteligentes demais. Um vai precisar do outro na guerra. O último Bond, James Bond, precisou de um cara nerd em "Skyfall". Mas o que tem a ver? É que eu estava lá pegando meus pesinhos e fazendo essas associações estranhas, quando começou a tocar essa música na academia. Sem meu celular para ligar o Shazam e descobrir de quem era aquela coisa maravilhosa (aquela coisa do caralho!), eu fiquei olhando de um lado para o outro para ver quem tinha cara de que usava esse programa (provavelmente ninguém ali). O que alguém pensaria se eu perguntasse sobre esse aplicativo? Eu tinha que correr, porque eu sabia que aquilo ia acabar em questão de minutos. Eu não parava de cantar, ou de imaginar que estava cantando aquele "oooohhhhhh oh oh ohhhhhhhhhh", e não saía do lugar. Eu estava absolutamente petrificado. Foi então que tive a boa ideia de perguntar para o instrutor se era possível saber o nome da música que estava tocando, já que o som vinha de uma espécie de programa de rádio pré-gravado. Ele foi legal, entendeu minha viagem (é um grande fã de punk, deve estar ligado na música) e abriu o arquivo: Rudimental, com "Right Here." Voltei ao treino em paz. Ohhhhhh oh oh ohhhhhhhhhh.


13.1.14

AMORES ROUBADOS

The xx
"Intro"
The xx (2009)
h
Em 2010 eu postei The xx aqui. Era um remix, porque sinceramente eu não tinha gostado do álbum na época do lançamento: achei desanimado demais, dark demais, para baixo demais. Como introduções de discos sempre são meio curtas, essa "Intro" passou batida, fora que era igual a muita coisa que eu já tinha ouvido na vida - tanto no gótico quanto no trip hop. Siouxsie and The Banshees e Massive Attack têm umas coisas assim. Mas o que mudou agora? O que mudou é que, desde o final de dezembro, todo mundo, inclusive eu, ficou completamente maluco por esse hino. A histeria começou logo que a Globo passou a anunciar a minissérie "Amores Roubados". Acho que a música estava desde 2009 só esperando o momento para ajudar a narrar a história de Leonardo, personagem vivido por Cauã Raymond na trama, criando tensão e tristeza. Quando ela tocava de fundo, parecia nos avisar que o protagonista ia se dar mal. E o que era intrigante: você tinha pena do sujeito, apesar de ele ir traçando a mulher de todo mundo, inclusive a do patrão. Leonardo é um protagonista ingênuo, sem a menor noção de que está correndo perigo ou de que destrói alguns corações delicados (bastou apenas um beijo na esposa do chefe, a romântica Isabel, vivida por Patrícia Pillar, para que a loira enlouquecesse literalmente). A tensão ainda aumentava para quem torcia pelo anti-herói porque as cenas com a linda Antônia (Ísis Valverde), filha de Isabel, foram as mais poéticas já feitas na televisão - tão intensas que até destruíram o casamento do cara fora das telas. E o The xx ficava sempre lá, anunciando a tragédia iminente, enquanto a câmera ia fechando os sorrisos do casal, bem devagar. Bravo, bravíssimo!

2.1.14

PIXIES

Pixies
"Where Is My Mind (Bassnectar Remix)"
Single (2012)
h
Como uma pessoa dança dubstep? Do mesmo jeito que dançava EBM (Electronic Body Music) no final dos anos 80: como se o bailarino socasse alguém deitado no chão e, após o soco, balançasse a cabeça como um headbanger. É esquisito, mas isso se explica pela agressividade dos dois estilos de música eletrônica. Então vem um o cara aqui e pega Pixies, faz um remix seminal em dubstep, depois um fã do filme O Clube da Luta junta isso e monta um vídeo incrível. Dá vontade de dançar socando, não?

27.12.13

TINASHE

Tinashe
"Black Water"
Black Water (Mixtape - 2013)
h
Tinashe Jorgenson Kachingwe é uma atriz, dançarina e modelo estadunidense que nas horas vagas faz música. Mais especificamente um hip hop leve, enfumaçado, com alguma influência de dubstep e r&b - e uma cerveja antes do almoço talvez, de tão bom. 

25.12.13

SAY LOU LOU

Say Lou Lou
"Beloved (Tiedye Remix)"
Single (2013)
h
Sem comentários! Ou quase: somente duas linhas na Wikipédia, sem nem ao menos esclarecerem se essas lindas irmãs gêmeas são australianas ou suecas; pouco menos de 2000 acessos no Youtube com dois comentários e apenas 20 curtir. Para ser honesto, dream pop docinho de meninas, tristonho ainda por cima, é raro alcançar sucesso estrondoso. Já o remix é como fogos de artifícios no Ano Novo. Necessário.
 

23.12.13

JUNGLE

Jungle
"The Heat"
Single (2013)
 
Tinha uns caras saudosistas no Youtube comentando um show do Porno For Pyros no Woodstock de 1994, comparando os incríveis anos 90 com outras décadas, e reclamando de que o segundo decênio desde século ainda adolescente é o pior de todos na história, pois ninguém mais se interessa por arte e música de qualidade. Concordo que aquele tempo foi realmente maravilhoso para a música (acid house, gangsta rap, grunge, álbum preto do Metallica, shoegaze, britpop, Raimundos, Planet Hemp, Chico Science, Sheik Tosado, Smashing Pumpkins, Sonic Youth, punk revival - aooohhhh bão demais sô!). Mas eu não reclamo muito da música de hoje. Olha esse Jungle, por exemplo, e para onde eles levaram o rap, o clip, a dança, a arte.

JAMES BLAKE

James Blake
"Limit To Your Love"
James Blake (2011)
h
James Blake, o maior produtor-dj-músico do mundo (ele tem 2,06 metros) é o inventor do dubstep pop e melancólico. O set dele como dj é estranho e realmente parece uma fraude: ele simplesmente fica em pé, como um poste, diante das pick-ups, e vai trocando os cds de músicas "blues" como essa aqui. 

21.12.13

TENSNAKE

Tensnake
"Love Sublime (ft Nile Rogers and Fiora)"
Single (2013)

Tem uma coisa muito errada quando você entra no metrô de São Paulo sábado à noite e ele tem mais hipsters do que em qualquer outra grande cidade grande do mundo. Você fica desconfiado, já que as "primaveras árabes" nessa cidade maluca acontecem no inverno, com hordas de jovens dizendo-se libertários, mas pedindo a volta da ditadura militar, destruindo bancos públicos, pontos de ônibus e postando fotos de cartazes engraçadinhos no "feici". Um gênio já disse sobre Sampa que isso é "porque és (ela é) o avesso do avesso do avesso do avesso". Tem coisa errada. "Chamei de mau gosto o que vi". Então você passa a olhar os outros, os não-hipsters, os não-modernos, os silenciosos, os comuns, de uma maneira positiva: pessoas com camisa polo azul clara, estilo cobrador de ônibus e calças do tipo "worker", largas da cintura à barra; aqueles caras vestidos da cabeça aos pés com uniforme de torcida; pessoas de perfil corporativo; professores de física em cursinho; tiozinhos alcoólatras; as periguetes - enfim, gente que supostamente estaria fora da moda passa a ser vista por mim, é claro, como genuinamente original, radicalmente moderna, mais inteligente e humana, sem frescuras. Mas o que isso significa? Simplesmente que eu cansei de sair de casa. Cansei de reparar nas pessoas, classificar tribos, de ir catar minha turma, como se dizia num xingamento antigo. E para lembrar como esses anos todos foram divertidos e até felizes, escolhi uma bem quentinha do Tensnake, porque esse estilo new disco foi a última grande coisa que me empolgou e me fez sair para dançar. Essa música é curta, feliz e belíssima... mas tem uma clima de saudade, de adeus.


20.12.13

RARIDADE

Reel 2 Real
"Toety (Erik Morillo Remix)"
This is Strictly Rhythm (1994)
h
Eu não gosto desse blog e das coisas que eu escrevo. Mas eu venho aqui por uma razão bem simples: eu gosto de música. Mas é tanta música que, passado algum tempo, eu não lembro mais o nome do artista ou da canção que em determinada época eu estava ouvindo. "Poxa, e aquele som lá, daqueles caras, daquele ano?" Isso é vago demais, e o tal som de tal época deve estar gravado por aí, perdido no hd, em algum pen drive ou num DVDr embolorado. E quando a coisa é muita boa, boa mesmo, marcante, eu tenho certeza que vim aqui um dia e escrevi algo a respeito. Como na última publicação eu estava falando sobre aquele negócio estranho de hooligans e drags dançando no mesmo lugar no final dos 80, me lembrei de um clássico quase da mesma época, e sobre o qual eu sabia que havia me referido aqui uma vez. O post abaixo foi escrito no dia 11 de março de 2009, às 7:49h, e é um dos poucos que eu leio e não tenho vontade de vomitar.
 
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Eu ainda estava naquela fase de formação do gosto musical quando ouvi pela primeira vez este single numa coletânea da gravadora Strictly Rhythm, que um cara da escola tinha me emprestado. Quando se é moleque as informações vão chegando e você não consegue decodificar todas elas direito. Sempre saíam umas matérias no Diário do Grande ABC sobre a vida maluca dos garotos de programa do centro de Santo André: eles ficavam perto do paço municipal, assaltavam uns coroas depois de fazer sexo com eles no meio da rua, usavam heroína com seringas coletivas e depois iam dançar num club GLS chamado Factory, do outro lado da cidade. Quando o cara que escrevia a matéria estava antenado, ele comentava sobre o som que rolava lá dentro: house e garage do selo Strickly Rhythm, que também era uma balada em Nova Iorque. Isso para mim era muito confuso, caótico. E a trilha daqueles tempos ficou ainda mais punk depois que o vinil contendo este remix caiu na minha mão. Que espécie de teclado infernal é este, eu me perguntava. E imaginava uma drag queen gigante e psicopata cantando essa "Toety". Engano, porque a dupla Reel 2 Real, na verdade, tinha influência de dancehall, coisa de macho, e cantava sobre mulheres. O vocal bizarro não era de uma drag e sim de um negão chamado The Mad Stuntman, cantor de Trinidad e Tobago, o mesmo daquela infame "I like to move it, move it".

8.12.13

PAZ NAS PISTAS E VIOLÊNCIA NO FUTEBOL

Black Box
"Ride On Time"
Dreamland (1990)
h
Nesses feriados próximos um do outro que tivemos semanas atrás, eu assisti a vários documentários sobre música eletrônica no Youtube: história do techno, história da disco, da house music, de clubes famosos, história do "sair para balada" (clubbing), história das raves. Revi um dos mais legais que chama "Pump Up The Volume - The History Of House Music" e vi metade de um chamado "How Clubbing Changed The World", apresentado por um dj, ator e ex-hooligan (ele não falou mas eu tenho quase certeza de que era) chamado Idris Elba. Apesar das diferenças de formato e foco, os dois documentários têm um importante ponto em comum, uma espécie de clímax arrepiante: é quando contam sobre a chegada a Inglaterra de um som eletrônico oriundo da disco, inventado em Chicago, nos EUA, e que fazia a cabeça de gays, negros e outros renegados no final dos anos 80: a house music. Na terra da rainha, não só negros e gays aderem ao novo estilo, como também os violentos e temidos torcedores de times de futebol. Taí um tratado de sociologia pronto para ser escrito. O futebol desperta instintos perigosos nas pessoas: é o esporte herdeiro direito das lutas mortais entre gladiadores, no sentido de que é feito para grandes massas, carregadas de sentimentos explosivos. Como, então, naquele tempo (de 1989 a 1991) sujeitos tão brutais, ciosos de suas masculinidades e, por causa disso, muitas vezes intolerantes, como esses caras conseguiam  dividir uma pista de dança com drags, gays, negros, yuppies, houseiros, pessoas comuns e torcedores de times adversários e todos ficavam na paz dançando "Ride On Time" nas pistas, então hit absoluto? Eis o mistério da dance music...

6.12.13

MADNESS

Madness
"Our House"
The Rise and Fall (1982)
h
Eu estava numa loja de departamentos hoje procurando grafite, chocolate e uma camiseta fuleira e barata para andar de bicicleta. Quando entrei no provador, começou a tocar "Our House" do Madness no alto-falante. Quase não acreditei e comecei a rir. Como assim Madness? Não era possível! Senti uma felicidade tão grande que quase comecei a dançar na frente do espelho.

23.11.13

TIEFSCHWARZ

Tiefschwarz
"Plastic, Bags & Magazines (by Micatone, Tiefschwarz Remix)"
Misch Masch (2005)
h
Está na cara que esses dois irmãos  são gente boa e que nunca tiveram problemas. Olha para eles. No máximo, em momentos de crise econômica, talvez eles tivessem que pensar rápido  demais sobre quais ações seriam obrigados a vender, o que causaria um certo estresse. Só que todo mundo tem seus dias de fúria gratuita. E num dia desses a dupla de djs alemães acordou com raiva, com ódio do mundo mesmo, sem nenhuma razão aparente (em 2005 as bolsas estavam funcionando muito bem, obrigado). Então eles foram para o estúdio produzir música. Os caras estavam tão violentos nesse dia, que ao pegar uma musiquinha de elevador de uma banda desconhecida chamada Micatone para remixar, acabaram construindo uma bomba atômica dançante. Até o segundo minuto e trinta, a música é um electro house com baixo e bateria altos demais, como num rock, o que vai gerando tensão no ouvinte. O bicho começa a pegar quando, neste ponto, eles sintetizam uma guitarra que corta as batidas. É um soco. Para botar fogo de vez, um chicote sonoro pouco antes do terceiro minuto. Porrada. Mais adiante eles tomam fôlego, a menina canta sobre seus plásticos, sacolas e revistas tranquilamente, e a tortura recomeça em seguida. Chicote e guitarra revigorados, o espancamento vem sem dó.
 
 

KATE BUSH

Kate Bush
"Running Up That Hill (Dirtycutmaster - Remix)"
Single
h
Parece que todo mundo ama Kate Bush, aquela artista com um pé na música e outro entre a literatura e o teatro. Ela é a principal influência da Florence Welch, já foi regravada por bandas de estilos diversos, como Placebo, Angra, Chromatics etc. Eu também já ouvi um milhão de remixes de "Running Up That Hill" - em trance, techno, nu disco. Mas por que será que as pessoas gostam tanto dessa música? Porque essa música é simplesmente estupenda. A versão que estou ouvindo direto é um deep house de mais de sete minutos, sempre mantendo a intensidade da coisa.
  


22.11.13

JAPAN POR GIORGIO MORODER

Japan
"Life In Tokyo (Extended Disco Mix)"
Giorgio Moroder - Eletronic Dancefloor Classics (2006)
h
O Japan era uma banda bem estranha: eles tinham esse visual todo exagerado e um som que era um misto de jazz, eletrônica e Duran Duran. Aqui, a lenda Giorgio Moroder dá uma cara disco para "Life In Tokyo", única espécie de hit que eles tiveram.

10.11.13

HOT NATURED FEAT. ALI LOVE

Hot Natured Feat Ali Love
"Benediction"
Different Sides Of The Sun (2012)
h
Então uma menina mexicana tinha uma espécie de namorado virtual no Facebook. Ele morava em outro país, acho que no Peru, não sei ao certo, e resolveu "terminar" o relacionamento porque aquilo devia ser uma loucura, eles talvez jamais fossem se ver pessoalmente. Então ela foi e postou na rede seus últimos segundos viva. E isso ainda não é o pior: o pior é que uma galera começou a fazer piadas na página da moça depois da tragédia. Que mundo! "Benediction, benediction in my life and soul", canta Ali Love.

8.11.13

JEE DAY

Jee Day
"Sum of Love"
Single
h
Eu estava revendo os textos que eu escrevi aqui desde 2008 e que agora estão guardados. Foram muitos sons maravilhosos, mais de 200 artistas, várias coisas que haviam acabado de sair, músicas antigas também, que me faziam lembrar de alguma cena do passado e tal. Tudo muito bom, tudo muito bonito. Mas o mesmo eu não posso dizer dos escritos! A maioria tão sentimentais e exagerados, um lixo! Poucos se salvam. Aí eu revi ali o Jee Day e fui ver o que o cara anda fazendo hoje em dia. Sobre essa música nova, agora, ou caberia um palavrão (que não deixa de ser pura expressão de sentimentos) ou uma descrição romântica sobre como isso é tocante. Paro por aqui...

6.11.13

JAGWAR MA

Jagwar Ma
"The Throw"
Howlin (2013)
h
Eu já tinha perdido a esperança de encontrar nesta vida uma banda que bebesse naquela fonte Happy Mondays, Primal Scream, Charlatans, Stone Roses, Chemical Brothers, James, Madchester (o melhor, mais feliz e ensolarado movimento de música pop da história da música): danças estranhas e desengonçadas em cima de prédios, calças largas, cabelinhos de tijela, cores, rave, house, psicodelia, dance music com uma certa atitude. Esse vídeo parece até que caiu da máquina do tempo direto de 1989. Uma maravilha!

26.10.13

DAFT PUNK

Daft Punk
"Human After All"
Human After All (2005)
h
Eu acho legal que o Daft Punk tenha voltado em 2013 com hits de FM e tudo, para que a molecada possa conhecê-los. Esse clip, no entanto, foi feito por um fã da dupla há algum tempo, e é extraído do incrível filme Electroma, de 2006. É um curta metragem mudo, estrelado pela própria dupla de robôs. Eles andam milhares de quilômetros para encontrar um cara (um robô também, já que não há outro tipo de habitante no planeta) que possa lhes moldar rostos humanos por cima dos capacetes. O plano fracassa e eles atravessam um deserto, talvez em busca dessa humanidade tão desejada, e uma coisa triste acontece no meio do caminho. Eu quase chorei, sou humano afinal de contas.  

24.10.13

ARTE NO ESCURO

Arte no Escuro
"No Fim"
Arte no Escuro (1987)
h
Se houvesse um campeonato mundial de nomes de bandas, Arte no Escuro iria para a final. Mas o que essa banda de Brasília tem de mais criativo, na verdade, é o uso que a vocalista faz da língua portuguesa nas canções. O estilo é puro pós-punk inglês dos anos 80, e alguém poderia até jurar que as músicas são cantadas em inglês. Provavelmente a vocalista era uma grande conhecedora do idioma e usou um fonema que não é comum no português brasileiro, o Schwa sound, para suavizar o sotaque. O Schwa neutraliza parte das palavras  e é o causador das dificuldades na hora de tentar entender uma letra. É uma vogal: a junção do A com o E, pronunciada de modo tão fraco que quase não se ouve. Ninguém até hoje sabe se Ian Brown canta "I wanna be adored" ou "I wanna be a door", mesmo na terra dele. Essa suavização explica também por que pessoas que não sabem inglês podem achar bonito o modo como um cantor interpreta uma canção e por que João Gilberto é admirado no mundo todo - algo que jamais aconteceria com um Jota Quest, Skank ou Capital Inicial - não porque sejam chatos, mas porque os vocalistas parecem berrar cada vogal, mesmo em canções românticas. As línguas latinas são, digamos, explosivas, como o próprio povo latino. Aí vem a Arte no Escuro com "No Fim" e a gente só consegue entender mesmo o título da música e algumas expressões esparsas: "de mim... só vejo... pouco que tenho... no fim do sonho... espero o dia... não me abraçou." Fino! Para que compreender tudo?

23.10.13

BOWIE, David

David Bowie
"Valentine's Day"
The Next Day (2013)
 
Eu gosto bastante dessas histórias por trás dos grandes álbuns. Um dia Bowie acordou, ficou com vontade de tocar e ligou para uns velhos amigos: alguns músicos e um produtor parceiro de muitos anos. Foram todos para o estúdio e fizeram um pacto: nem mesmo a família das pessoas envolvidas deveria saber do trabalho até a data do lançamento, uns três anos depois do primeiro ensaio. A Terra tremeu quando saiu o primeiro single, "Where are we now?". Então The Next Day é um clássico desde o nascimento: um pouco por causa daquele segredo, muito porque é impecável, e também porque parece uma despedida.

17.10.13

LORDE II

Lorde
"Buzzcut Season"
Pure Heroine (2013)
h
Coisa inédita: duas músicas seguidas do mesmo artista no mesmo dia. Quando eu ouço as músicas dessa moça, me dá uma raiva enorme (o gigante acordou!) por elas serem tão curtas.

LORDE

Lorde
"Team"
Pure Heroine (2013)
h
Eu toquei "Team" mais de 40 vezes em apenas dois dias, e vou tocar mais até enjoar, se isso for possível. E ainda tem esse álbum muito bom pela frente. Se estivéssemos naquela época de ouro da MTV (pêsames), com Top 20 Brasil e tal, aquela época singela em que ainda existiam lojas de CD, essa menina neozelandesa de apenas 16 anos (inacreditável, já que ela parece bastante adulta no palco) seria a grande explosão do pop, vendendo milhões de discos e passando rasteira em gente boa.

15.10.13

E A MELHOR MÚSICA DO ANO É...

Johnny Marr
"New Town Velocity"
The Messenger (2013)
h
Essa música é de rasgar o peito. Eu estava em Londres no final do ano passado quando comprei uma revista Mojo com o Johnny Marr na capa e fui treinar minha leitura. Ele tinha acabado de lançar "The Messenger", mas eu tinha tanta coisa para fazer naquele lugar que só fui baixar esse disco quando cheguei. Dali para frente, todas as minhas memórias daquela cidade incrível teriam trilha sonora. Guerrinha e boneco de neve na rua, o frio de rachar as orelhas, o metrô lotado porém eficiente, os ônibus de dois andares, os cisnes que comem na sua mão, os clubs, o bairro jamaicano onde fiquei, os amigos que fiz lá, os pubs e as bebedeiras, os parques, Camden Town, Dalston, aquelas casinhas todas iguais, Maria Simpriaga...


14.10.13

J DILLA

J Dilla
"Nothing Like This"
 Ruff Draft (2003)
h
Esse rapper americano morreu em 2006, e até a semana passada eu nem sabia que ele havia passado pela Terra. Rap psicodélico (também não sabia que isso existia), com voz soterrada  por camadas e mais camadas de distorções e uma batida forte e distante. Parece até que esse J Dilla sempre esteve em outro plano espiritual e escreveu "Nothing Like This" de lá. Que Deus o tenha. 
 

20.9.13

BONOBO

Bonobo
"Cirrus"
The North Borders (2013)
h
Bonobo é música eletrônica ambiente, bem calminha, para quem quer descansar um pouco. A repórter do Multishow acabou de me ofender durante a transmissão do Rock In Rio. Ao entrevistar um casal de globais, ela perguntou se eles ainda tinham aquele "lance meio adolescente de descobrir coisas novas." O casal e a moça da emissora concordaram então que na idade adulta o único som possível para pessoas normais é Ivete Sangalo e MPB. Aí eu me fiz duas perguntas: adolescentes têm esse ímpeto desbravador? O sujeito maduro que vai além de axé e MPB sofre de algum distúrbio? Já ouvi esse papo antes, e é cansativo...


9.8.13

HAIM

Haim
"Forever"
Forever EP (2012)
h
Tem gente que nasce iluminada. Tem os gênios também. E tem quem coloque toda a força, a vitalidade, disposição, desejo, esperança, tempo, treino, amor etc numa coisa só, e dali sai o único tipo de sabedoria possível: aquela que conta com o exagero. Não sei em que categoria de pessoas especiais essas meninas se enquadram. Talvez em todas.


4.8.13

GOOD MORNING

Morning Glory
"I Want to Break Free" (Unknown Remix)
2013
h
Morning Glory é uma balada que acontece em plena segunda-feira de manhã, em Shoreditch, o bairro mais alternativo de Londres. É para quem gosta de dançar, mas trabalha duro durante a semana. Ou para quem substituiu substâncias pesadas por suco de laranja e massagem. Mas o fato é que eu vim falar desse remix: simplesmente foda.

3.8.13

VAMOS DE BARCO

Gang do Eletro
"Vamos de Barco"
Gang do Eletro (2013)
 
Eu desconfio que popopô é aquela balsa transformada em barco que o povo da Amazônia usa para tudo: para ir à escola, ao mercado e até para balada, como diz a letra dessa música. Não tem nada mais moderno no pop brasileiro hoje do que a Gang do Eletro. "Fim de semana tô de bobeira eu quero é dançar / No Super Pop, no Ruby, no Tupinambá". 


19.2.13

MAYA JANE COLES

Maya Jane Coles
"Easier To Hide"
Single
O baixo do início lembra New Order; o vocal feminino é de banda shoegaze dos anos 90; a batida é de minimal house, tranquila, mas também perfeita para dançar. Maya Jane Coles é o novo Rock.

 

28.5.12

CHARLI XCX

Charli XCX
"Stay Away"
Stay Away EP
h
A música dessa bonita moça inglesa é um pop eletrônico, meio trip hop, meio dubstep e um tanto quanto sombria. Por causa disso, é difícil apostar num sucesso estrondoso como foi o da Adele. Uma pena, porque há talento de sobra. Bem, mas de repente a música entra na trilha sonora da novela "Avenida Brasil" e...

24.9.11

A HISTÓRIA DE UMA PESSOA QUE NÃO CONHEÇO

Afrojack feat. Eva Simons
"Take Over Control (Ian Carey Remix)"
Single (2011)
h
Às vezes é legal ouvir um sonzinho de "playba", qual seja, aquela eletrônica totalmente distante da reflexão ou do sentimentalismo, qualquer coisa que não seja nerd ou cabeçuda. Uma curtição pura e simples. A música que todos chamam de burra...pode ser.

Então uma vez eu fui clicar na foto de um cara que trabalha comigo para adicioná-lo ao meu Facebook, nas recomendações que o site nos oferece. A página havia travado (ou o meu computador é um lixo, não sei). Quando ela, a página, voltou, numa eternidade de um segundo e meio, o clique acabou caindo para uma moça que eu nem conhecia. Mandei um aviso para ela, me desculpando, dizendo que tinha sido um engano, que era para não aceitar o pedido. Ela respondeu e disse que não havia problema nisso, e me aceitou. Dei uma olhada nas fotos e hmmmm (coisa interessante!), ela parecia viver para a música eletrônica desse tipo do Afrojack: som, praia e praia e som, mais beijos na boca. Uma história regada a dance music...

O Afrojack é o novo queridinho dos festivais no hemisfério norte. As pessoas dão uma paradinha na tenda dele para dar aquela espiada no prodígio, logo depois dos shows de rock. 

Então a conclusão é a seguinte: quando você associa esse som à história de alguém que você nem sabe se existe, é sinal de que a música não é tão burra assim.
h

28.8.11

TEENGIRL FANTASY

Teengirl Fantasy
"Cheaters"
7AM (2010)
h
Duvido que esses caras tinham a pretensão de criar uma verdadeira obra de arte. A primeira impressão que se tem ao ouvir "Cheaters", da dupla americana Teengirl Fantasy, é a de que essa música é só mais do mesmo: tecladão trance, baixo gordo de tecno antigo... Mas depois começa aquilo que eu chamo de uma espécie de atmosfera de sonho: uns distantes vocais soul gritados (me lembrou Massive Attack) e apaixonados, desaleração house, mais teclados. Um verdadeiro achado... Uma pequena e sincera obra de arte concebida pelo espírito humano!